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O ensino digital

Dr. Carlos Freitas10 de julho de 2026
O ensino digital

Enquanto docente, considero que este tema merece uma reflexão séria e sem posições extremistas. O digital não é o inimigo da educação. Pelo contrário, é uma ferramenta indispensável nos dias de hoje. Vivemos numa sociedade cada vez mais tecnológica, onde as competências digitais são essenciais para o acesso ao conhecimento, ao mercado de trabalho e ao exercício da cidadania. Ignorar esta realidade seria preparar os alunos para um mundo que já não existe.

No entanto, também considero que a forma como esta transição foi implementada em muitos contextos educativos merece uma análise crítica. A introdução massiva de dispositivos digitais nas escolas foi frequentemente encarada como uma solução quase milagrosa para melhorar a aprendizagem. A tecnologia passou a ocupar um espaço central, mas nem sempre foi acompanhada de uma estratégia pedagógica consistente e, sobretudo, de uma responsabilização das famílias.

Na minha opinião, o maior problema não está nas escolas. Os estabelecimentos de ensino utilizam o digital durante um número limitado de horas por dia e, na maioria dos casos, com objetivos pedagógicos definidos. A verdadeira dificuldade surge fora da escola. Muitos alunos passam várias horas diárias em frente a ecrãs, entre redes sociais, videojogos, plataformas de vídeo e outras formas de entretenimento digital, sem qualquer controlo ou definição de limites.

É precisamente aqui que, enquanto sociedade, falhámos. O controlo parental foi sendo substituído pela comodidade que os dispositivos eletrónicos oferecem. Muitos pais, por diversas razões, deixaram de estabelecer regras claras relativamente ao tempo de utilização das tecnologias. Consequentemente, as crianças e os jovens acumulam um número excessivo de horas de exposição aos ecrãs, o que pode afetar a concentração, a capacidade de leitura prolongada, a escrita manual, a memória, o sono e até as competências de relacionamento interpessoal.

Se alguns países estão agora a recuperar os livros impressos e a escrita à mão, não interpreto essa decisão como uma rejeição da tecnologia. Vejo-a antes como uma tentativa de reencontrar o equilíbrio. O erro nunca foi utilizar computadores ou tablets; o erro foi acreditar que estes poderiam substituir integralmente métodos de aprendizagem que continuam a demonstrar enorme eficácia.

A educação não deve escolher entre o papel e o digital. Deve integrar ambos de forma inteligente. Mas essa integração só produzirá resultados positivos se for acompanhada por uma verdadeira parceria entre escola e família. Sem supervisão e sem limites ao uso das tecnologias fora do contexto escolar, dificilmente conseguiremos evitar os efeitos negativos do excesso de tempo em frente aos ecrãs. O desafio do futuro não é eliminar o digital, mas ensinar a utilizá-lo com equilíbrio, responsabilidade e sentido pedagógico.

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